Sêo Dotô, Sêo Dotô!

Sêo Dotô, Sêo Dotô!
Zé Pelintra chegou.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2010 foi bom, mas, 2011 será melhor...



Senhor,
peço-te perdão, se não encontrastes em mim um lugar para Te acolher.
Escolhestes um povo entre tantos, mas esses recusaram-Te.
Experimentastes o estar longe de casa, o exílio, a clandestinidade forçada,
o anonimato e a precariedade.
Como nesses tempos, também hoje, provavelmente, eu te rejeitei.
Acolher-Te, Senhor, exige empenho:
É revisitar os meus critérios, dar nome aos meus ídolos,
abandonar as minhas seguranças… e seguir-Te…
Para onde… não sei. Perdoa-me, se eu não Te procuro para adorar,
como fizeram os Magos; Perdoa-me, se nem sempre Te reconheço e Te escolho;
Perdoa-me, se nem sempre faço espaço dentro
de mim para que possas entrar e ficar comigo.

ESPERANÇA

Senhor tenho ânsia de conversar contigo,
de te encontrar; Dizer o que penso e o que sofro;
Por isso, ensina-me a te ver, em todos os instantes
dos meus dias; Na primeira face que eu encontrar no caminho;
No primeiro olhar que me for dirigido;
Na primeira voz que eu escutar;
No primeiro aperto de mão;
No vento que me toca leve;
Na água pura e cristalina que me serve;
No sol que beija o meu rosto;
Na beleza da noite, silenciosa e amiga;
Pois só Tu, és a Paz.

Amém.

Axè

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os Voduns


Os Voduns são ícones ou "Orixás" da Cultura Jêje. São diferentes dos Orixás tradicionais pois não pertencem somente à estrutura de criação do Planeta Terra. Estão acima dos Orixás, pois pensam, decidem e têm senso de distância, pena, ódio, amor, tempo. São Tridimensionais, Binários e Ternários, Holográficos, Lógicos, Aleatórios e infalíveis. Alguns têm a sua "origem" fora do mundo e, outros ainda, fora do próprio Sistema Solar – porquanto alguns, são legitimamente extraterrestres. Os Voduns, em sua grande maioria, foram seres humanos e ou, anjos, que participaram do "assentamento" do "macaco pensante"- (ser humano) no mundo. (Vide Bíblia - Gênesis 6.) – (Vide Titans na Mitologia Grega).

Exemplos de alguns Voduns originais: Profeta Elias, Profeta Enoch, Profeta Eliseu, Noah (Noé), Nimrod (Oduduwá) Moysés, Josué, Helena de Tróia, Judith, Maria Madalena, Hamurab, Golias, Alexandre, O Grande e tantos outros. A codificação dos Voduns foi feita por Jethro, Sacerdote da Tribo de Dan (uma das 12 Tribos de Israel), sogro de Moisés, que o acolheu quando este foi expulso do Egito. Jethro ensinou à Moisés como usar os poderes mágicos que Jeová lhe concedera no Monte Sinai. Portanto, Voduns representam a capacidade de Mutação, restauração e evolução eterna em ambos os sentidos. São espíritos importantes na "constituição" de uma nação ou tribo. Os Voduns, necessariamente são espíritos ou energias racionais que comandam o estrutural da vida de muitos seres humanos ou comunidades. Os Voduns detém todo o poder sobre os Orixás, alterando-os, modificando-os e dirigindo sua força quando necessário. Alguns Voduns foram Nephlins.

A magia dos Voduns é poderosa e altera sistemas governamentais e sociedades. Um exemplo disto, está na "Família Kennedy" cujo ancestral Joseph Kennedy não cumpriu com as promessas feitas ao sacerdote do seu próprio Vodun, gerando com isto toda a tragédia que vitimou seus descendentes. Erroneamente este ritual está classificado pelos dicionaristas menos competentes ou menos avisados, como "pratica de magia negra". Não existe prática de magia branca ou negra – existe prática de magia positiva ou negativa. A única diferença entre a magia Vodu e as demais, é que, o Vodu funciona para o bem ou para o mal. É a eterna luta entre o Faraó Ramsés II e Moisés – qual a Cobra mais poderosa ? A cobra do Rio Nilo ou a Cobra do Jardim do Éden?

Mas os Voduns conseguiram tanto com seus Arquétipos Positivos, quanto com seus Arquétipos Negativos, chegar aos nossos dias em nossas Américas: - Nova Orleans, Haiti e Maranhão (Brasil). Está aí no Boi de Matraca, Tambor de Crioula, Terecô, Tambor da Mina do Maranhão, Tambor Dagomé de Cachoeira na Bahia, Batuque Oyó do Rio Grande dos Sul e tantos outros rituais da Cultura Jêje espalhados pelo Brasil, talvez o maior herdeiro da Cultura Vodun do mundo.

Dezenas de Voduns que são hoje conhecidos nos "candomblés" da Bahia, foram "importados" desta cultura habraico-sumeriana. Spakatá, Nanan Burukú, Aguê, Aziri, Abotô, Neossum, Ajagunan, Ajagun, Legbá, Bará, Tobôssi, Fá, Nikassé, Oduduwa, Zomadonu, Davissés, Ewá, Olókun, Oxunmarê e Dan, são apenas alguns nomes, de centenas de Voduns que hoje habitam o Brasil e interferem na política, na genética e no futuro do país. Fizeram presidentes, senadores, governadores, deputados e governadores. Alguns para o BEM, outros para o MAL. Cada um recebeu a sua oportunidade. Se a usou da forma certa e para o bem do POVO, está "colocado". Senão, virou um "Zumbi" escravo de outros tantos piores do que ele próprio. Assim é o JÊJE ou Vodú..Uma opção entre o certo e o errado, entre ser bom ou perverso. Entre ter o poder político ou financeiro e distribuir pelo POVO, ou usar isto tudo a MASSACRAR o POVO. Mas é preciso não se esquecer que o VODUN veio do Povo, para o Povo e pelo Povo, assim como Abrahão, Ismael, Isaque, Jacó, Moysés, Davi, Jesus e tantos Santos sacrificados.

O dia no qual os sacerdotes (políticos ou não), assim como Jetrho, olharem para o Povo, os Voduns alcançarão seus filhos e mudarão todos os Sistemas de Governo. Caso contrário, não há necessidade de sacerdotes, pais-de-santo, babalorixás, pastores, bispos ou padres. Os Voduns farão sua ligação com o POVO, sem a necessidade de intermediários. E aí, "O Fogo do Céu" cairá sobre os Palácios do Governantes. Exatamente como aconteceu no passado. Vodun é Vida, é Preservação da Espécie, é Evolução!

Yorubana

Axé

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ano Novo!!! Vida Nova!!!



Quem neste nosso imenso Brasil, independentemente de credo ou religião, não atirou uma rosa ao mar, derramou algumas gotas de perfume, disse uma oração mesmo sem saber rezar pedindo aos orixás proteção, amor, saúde, dinheiro ou paz? Mas, para pular as sete ondas ou seguir qualquer outro ritual, há que se ter, além da fé, conhecimento e sabedoria. Por isso fomos consultar três pais-de- santo, que explicaram direitinho o que é preciso fazer para atrair todas as energias positivas.  Podem-se escolher dois horários para entregar as oferendas: meia-noite, como manda a tradição, ou o primeiro nascer do sol do ano.


As rosas utilizadas nos rituais não podem ter espinhos. Relacionados com a dor e com as dificuldades, eles não combinam com nenhum pedido alto-astral. Depois de entrar na água para fazer os seus pedidos, não saia de costas para o mar em sinal de respeito aos orixás. E, mesmo longe de casa, não se esqueça dela na passagem do ano. Deixe algumas lâmpadas acesas e espalhe um pouco de arroz pelos cômodos. É importante começar o ano com luz e de preferência vestida de branco, a cor de Oxalá, deus do princípio de uma nova vida.
Para atrair ou manter um grande amor: se você for casada, acenda duas velas amarelas, de preferência de mel. Caso seja solteira, apenas uma. Peça a Oxum (deusa do amor, da fertilidade, da pureza e do ouro) tranqüilidade e estabilidade no relacionamento ou, se estiver sozinha, que apareça uma pessoa especial. Ao redor da vela, que deve estar queimando, derrame mel. Coloque quatro búzios, quatro moedas do mesmo valor e, por último, oito ou dezesseis rosas amarelas (os números de Oxum). Fique na praia até a vela queimar.

(Fonte: Pai-de-santo Francelino de Shapanan, coordenador do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira no Estado de São Paulo)



Para afastar os maus fluidos: vá para a beira do mar e, com a água batendo na sua canela, derrame pipoca no seu corpo da cabeça aos pés. Deixe a água do mar levar a pipoca, que pertence ao orixá Omolu, senhor da vida, da cura e da saúde.(Fonte: Pai-de-santo Francelino de Shapanan)Seu amor de volta: pegue oito fitas de cores diferentes (só não utilize preto e vermelho), cada uma com 1 metro. Olhe para o mar e coloque quatro fitas em cada ombro deixando que elas escorreguem pelo seu corpo. Em seguida, com os pés na água, tire as pétalas de três rosas amarelas, jogue-as por cima da sua cabeça e deixe que caiam no mar. Depois, solte as fitas na água, uma de cada vez, pedindo a Oxum para trazer de volta o seu amor.(Fonte: Pai-de-santo Aristides Oliveira Mascarenhas, vice-presidente da Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro)Garantia de paz, tranqüilidade e prosperidade: misture pétalas de rosa branca, arroz cru e uma essência de sua preferência e passe pelo corpo. Olhe para o mar e reze pedindo paz e prosperidade para o ano novo. Em seguida, tire os sapatos e entre vestida com uma roupa branca no mar. Dê três mergulhos e saia da água de costas para a areia.

(Fonte: Pai-de-santo Francelino de Shapanan)




FELIZ ANO NOVO E MUITO AXÉ PARA TODOS.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

TAMBOR DE MINA E UMBANDA: O culto aos caboclos no Maranhão

Mundicarmo Ferretti
Publicado no Jornal do CEUCAB-RS:
Sagrado
  (1)
TAMBOR DE MINA E UMBANDA:

O culto aos caboclos no Maranhão
 
RESUMO
caboclas, apoiada em pesquisa sistemática realizada em terreiros de Mina de São Luís, a partir de 1984, em
entrevistas e observações realizadas no interior do Estado e em terreiros de outras denominações religiosas afrobrasileiras.
Fala da relação e das diferenças entre as entidades espirituais caboclas e as indígenas e compara o
caboclo do Tambor de Mina com o recebido em terreiros de Umbanda no Maranhão.
: Visão geral sobre a religião afro-brasileira do Maranhão e, em especial, sobre as entidades espirituais
PALAVRAS-CHAVE
 
Antes de começar a falar sobre o culto aos caboclos no Maranhão, gostaria de
agradecer ao
Sul
Antônio Pernambuco Nogueira pela forma atenciosa como fomos e estamos sendo tratados.
Gostaria também de informar que, embora tenha uma ligação com a Casa das Minas-
Jeje (onde toco um instrumentos musical - cabaça), minha ligação com a religião afrobrasileira
é maior como pesquisadora, uma vez que não sou iniciada.
Queria ainda esclarecer que minha pesquisa sistemática sobre religião afro-brasileira é
centrada no Tambor de Mina da capital maranhense. Por essa razão, embora eu tenha
realizado observações e entrevistas em terreiros de outras cidades maranhenses, como Codó e
Cururupu, e em terreiros de Umbanda da capital e do interior, vou tratar aqui mais sobre o
caboclo no Tambor de Mina. (Se alguém estiver interessado em ler ou xerocar algum dos meus
trabalhos anteriores mais relacionados ao tema a ser desenvolvido aqui, estou deixando na
coordenação dois livros, um LP e cópia de alguns artigos publicados por mim últimos dez anos
sobre religião afro-brasileira e entidades espirituais caboclas).

Conselho Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros do Rio Grande dopela oportunidade de participar deste encontro, e ao seu Conselheiro-Geral: Sr. Adalberto
A RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA NO MARANHÃO

Não se pode falar em religião afro-brasileira do Maranhão sem falar em Tambor de
Mina e nos dois terreiros mais antigos dessa denominação religiosa, localizados no bairro de
São Pantaleão (Centro): a
Nagô
Acredita-se que a primeira tenha sido fundada por uma rainha do antigo reino do
Dahomé, vendida como escrava após o falecimento do Rei Agonglô (1797), ou por pessoa por
ela iniciada (VERGER, P., 1990). Fala-se que a Casa de Nagô foi aberta por outro grupo, com a
colaboração da primeira, razão pela qual é muito ligada a ela. Fala-se ainda na Casa das Minas
da existência no passado de um terreiro Cambinda muito ligado à casa Jeje em Codó, interior(2).
do Estado
 (3), seDesceu na Guma Tambor de Mina, Cura e Baião na Casa Fanti-Ashanti (1991).
recebe vodum ou gentil, no entanto, na maioria dos terreiros, costumam ser recebidos com
maior freqüência e permanecer em terra por mais tempo.
No Maranhão, os terreiros de Mina abertos por africanos são chefiados espiritualmente
por vodum ou orixá (Zomadonu e Xangô), mas a chefia de entidade cabocla é bem antiga nos
terreiros de São Luís e parece ter começado com o Terreiro da Turquia (que, segundo seu
atual dirigente, é de 1989).
Embora haja uma certa uniformidade na representação das entidades espirituais, a
nação, a família e a idade de uma entidade pode variar de um terreiro para outro, uma vez
que se apoiam em relações múltiplas muito complexas. Na Mina maranhense, o vodum
Averequete é nagô assentado no jeje; a cabocla Jarina é turca mas pode vir na família do Rei
Sebastião; Legua-Boji é vodum cambinda mas é chefe de uma linha de caboclo e pode vir bem
velho ou ainda moço.
A religião afro-brasileira no Maranhão, em suas diversas denominações é bastante
ligada ao catolicismo. Alem dos terreiros realizarem festas e rituais do catolicismo popular,
como a
no terreiro, com água benta), alguns ritos católicos são indispensáveis nas festas de voduns e
encantados, como:
As festas de voduns e encantados costumam ser também animadas por brincadeiras do
folclore como:
família da Turquia);
Beirada (filho de Dom Luiz Rei de França)
Na Mina as festas são muito freqüentes, acompanham o calendário santoral católico e
costumam incluir três noites de toque. Em algumas datas do ano quase todos os terreiros
fazem toques (20/1 - São Sebastião; Sábado de Aleluia; 2º domingo de Agosto - Averequete;
4/12 - Santa Bárbara). Em varias outras datas muitos terreiros tocam uma ou três noites (24/6
- São João; 29/6 - São Pedro; 26/7 - Santana; 28/9 - São Miguel; 8/12 - N.Sra. da Conceição;
13/12 - Santa Luzia). Existem algumas datas festejadas em uma ou em poucas casas, mas no
Maranhão, só não se faz toque na Quaresma (período do calendário cristão).
Embora, excetuando-se a Casa das Minas-Jeje, os médiuns no Maranhão recebam mais
de uma entidade espiritual, na Mina geralmente se dança, à noite toda, com a mesma
entidade (com a dona da cabeça, seu senhor ou senhora, ou com seu guia -caboclo chefe). Nos
terreiros onde os médiuns têm muitas entidades de categorias diferentes, costuma ocorrer
toques em homenagem a determinadas categorias de entidades, com estrutura idêntica ao
usual (como a
Festa do Espírito Santo, Queimação de Palhinhas do Presépio, Batismo (na igreja oumissa, procissão e ladainha (em latim).Tambor de Crioula, na do vodum Averequete e do caboclo Jariodama (daBumba-Boi, na do vodum-cambinda Légua Boji-Buá e do caboclo Corre-(4).Festa das Moças, do Terreiro Fé em Deus), ou com estrutura diferente (como a
Bancada,
Alguns terreiros realizam também para determinadas categorias de entidades toques
especiais como: o
mata”) e o
realizados em São Luís, no Terreiro Fé em Deus. A Casa Fanti-Ashanti realiza também uma
festa para entidades femininas ligadas à Cura/Pajelança, no dia de Santa Luzia (13/12),
denominada
São Gonçalo
terreiros de Umbanda, algumas casas de Mina, como o Terreiro de Iemanjá de Pai Jorge Itaci,
realizam, no dia 13/5 (dia da abolição da escravatura no Brasil),.um toques e um
Crioula
Holanda.
Na Mina não há festa para Exu e incorporação de Pombagiras. Nos terreiros mais
antigos, como mostrou Sergio FERRETTI (1985), Legba é saudado com respeito, de forma
realizada com entidades femininas).Tambor de Borá (para índios, precedido, geralmente, por acampamento “naTambor de Fulupa (com “cama de espinhos” para os encantados), ambosBaião, que, apesar da incorporação das entidades femininas, lembra os Bailes de, do catolicismo popular. E, embora os Pretos-Velhos sejam mais cultuados emTambor deem homenagem às entidades velhas da Mina: Mãe Maria, Pai José, Camundá de
discreta, “para que não perturbe os trabalhos”. Outras entidades assumem seu papel
tradicional nas religiões africanas. Na Mina-Jeje, os
Queviosô falam pelos mais velhos (que são mudos na Casa das Minas).
No Maranhão, a entidade espiritual que “abre as portas” para caboclo é Averequete,
“vodum nagô assentado no jeje”, como costuma falar Dona Celeste, uma das vodunsis mais
conhecidas da Casa das Minas-Jeje. É saudado na abertura do Tambor da Mata e, na Mina-
Nagô, quando “o tambor vira prá mata” - quando se faz um corte no toque de Mina para
homenagear os caboclos e, geralmente, nos terreiros de caboclo, os voduns dão passagem a
eles. Depois que o “tambor vira prá mata” passa-se a cantar em português e os caboclos
podem expressar suas características próprias com maior liberdade, principalmente onde os
voduns “sobem” antes do encerramento do toque, e eles passam a tomar conta do barracão.
Nesse contexto costumam usar lenços coloridos, bradar, dar rodadas, sair do salão para fumar
e, em algumas casas, para beber, e passam a cumprimentar a assistência de modo mais
afetuoso e menos formal do que o dos voduns e gentis.
Algumas entidades caboclas da Mina possuem características semelhantes as de Exu e
Pombagira. Alguns caboclos são vistos como fortes mas perigosos e vingativos; fazem uso de
bebida alcoólica, de palavras e gestos chistosos e meio obscenos (como os turcos, a família de
Legua-Boji e os surrupiras). Mas essas características são reprimidas na maioria dos terreiros
mais tradicionalistas.
Os terreiros de Mina, geralmente, não fazem iniciação completa de muitas pessoas e
não anunciam, aos “de fora”, quem tem maior fundamento. As vodunsis da Casa das Minas
que não moram no terreiro, embora possam fazer pedidos aos voduns em suas casas, precisam
ir ao terreiro até para acender uma vela e, se recebem em casa a visita do seu vodum, este
têm que ir ao “come/peji” (no terreiro) antes de “subir”.
Na Mina tradicional, geralmente, a comida oferecida aos voduns fica algumas horas no
quarto de santo e depois é consumida pelas pessoas no terreiro. Na Mina-Jeje a obrigação é
servida em pequenas tigelas preparadas no “come”. Só na de Acossi (realizada em janeiro, no
dia de São Sebastião) e no “arrambã” ou bancada (realizado na 4ª feira de cinzas), é que a
comida de obrigação é dividida “pelos voduns” na sala ou no barracão. Na Mina-Jeje, os
pertences dos voduns (roupas, colares, leque, cachimbo, bengala, chicote, etc.) devem ficar
na casa e, após a morte das vodunsis, podem ser usados por ele, quando incorporados em
outra pessoa.
Na Mina tradicional a clientela dos “mineiros” é, geralmente, vinculada a eles por
parentesco biológico ou ritual e a clientela dos encantados é constituída de pessoas que têm
ligação com eles, com o pessoal do terreiro e com a religião. Só as pessoas “mais ligadas”
ficam na Casa das Minas ou na Casa de Nagô para falar com os vuduns e só estas procuram as
vodunsis depois do toque para receber delas um banho, passe ou benzimento. Os terreiros
mais antigos têm suas portas sempre abertas mas neles não há horário para consulta e nada
do que é feito ali em benefício de alguém é cobrado ou tem preço estipulado.
Nos terreiros de Mina mais antigos não se joga búzio. Na Casa das Minas não se
costuma dizer a que entidade espiritual uma pessoa pertence, fala-se que é o próprio vodum
que deve revelar a ela a sua escolha e a missão dela decorrente. As pessoas “de fora” que
começam a freqüentar aquela casa, geralmente, tem alguma amizade com uma vodunsi ou
simpatia por um vodum e essa relação é interpretada como uma ligação com o vodum, até
“prova em contrário”. Todos que estabelecem esse tipo de relação passam a colaborar com a
casa. Os mais ligados são integrados a ela como “assissis” de um determinado vodum e,
“quando chega a hora” recebem uma “guia” (colar de proteção). São essas pessoas que, em
caso de necessidade, levam um pacote de velas para serem acesas no come/peji, pela vodunsi
toqüenos (voduns jovens) da família de
que está no comando da casa, e que recebem uma tigelinha de comida de obrigação e uma
garrafa de banho quando essa é encerrada
 
Na Mina as distinções entre voduns, gentis e caboclos interessa mais a antropólogos do
que aos médiuns e pais-de-santo. De modo geral, o termo vodum é usado para designar as
entidades da encantaria africana (jeje, como Dossu, nagô, como Xangô, cambinda, como
Vandereji) e, às vezes, de forma genérica, para designar as entidades mais antigas e
prestigiadas recebidas no Tambor de Mina.
O termo gentil designa encantados da nobreza européia, geralmente cristã, associados
a orixás e, às vezes também, a santos católicos. Esses encantados são também classificados
como nagô-gentil ou como vodum-cambinda. Entre eles merecem destaque: Rei Sebastião,
associado a Xapanã e a São Sebastião; Rainha Dina, associada a Iansã; Rainha Rosa, associada
a Santa Rosa de Lima e a Oxum; Dom Luiz, Rei de França, associado a Xangô e a São Luís (Luiz
IX).
No Maranhão, o termo caboclo designa entidades distintas dos voduns africanos e dos
gentis, mas, difíceis de serem definidas e caracterizadas. De modo geral os caboclos são:
1) encantados que tiveram vida terrena mas não podem ser confundidos com espíritos
de mortos (eguns), do astral, e alguns deles pertencem a categorias não humanas como os
botos e surrupiras;
2) são associados às águas salgadas, como os turcos; à mata, como a família de Légua-
Boji; à água doce, como Corre-Beirada (oriundo da Cura/ Pajelança);
3) pertencem à encantaria brasileira mas podem ser originários de outros países
(França, Turquia);
4) têm ligação com grupos indígenas mas podem ser nobres que preferiram ficar fora
dos castelos;
5) são recebidos freqüentemente, mas nem sempre na qualidade de “donos da
cabeça”;
6) são homenageados, geralmente, no final ou no último dia do toque mas podem ser
recebidos em rituais onde há voduns.
Na Mina, falar em caboclo é falar em Mina-Nagô ou em Mina cruzada com Mata,
Cura/Pajelança ou Umbanda, já que na Casa das Minas-Jeje não se entra em transe com ele.
Na Casa de Nagô o caboclo é muito antigo e integrado com voduns e gentis. Fala-se que no
passado eles eram ali recebidos em todas as festas mas em noite reservada a eles. Hoje
dançam na roda dos voduns e gentis e só as pessoas que conhecem bem a casa e as vodunsis
podem identificar quem está com, gentil ou caboclo.
Alem de toques para voduns (e orixás), gentis e caboclos, os terreiros de Mina
realizam também rituais onde ocorre transe com índios, surrupiras, botos, fulupa ou com
outros encantados que só podem participar dos toques de Mina se “vierem como caboclos”
(civilizados ou humanizados). Como as entidades indígenas são mais amplamente conhecidas
na religião afro-brasileira e temos informações mais completas e sistematizadas sobre elas do
que sobre as outras, vamos tratar agora um pouco sobre a relação dos caboclos com elas.
(5)
ligaram à Umbanda, Quimbanda ou Candomblé são procurados por maior número de clientes e só em salão de
curador se pode encontrar movimento de pessoas durante os toques para consultar um guia espiritual.
Na Mina do Maranhão, só os pais-de-santo que começaram como curadores/pajés, como terecozeiros, ou que se

Índios e caboclos na Mina e na Umbanda maranhense

Como já esclarecemos, na
indígena e os que têm não se manifestam de modo selvagem nos toques de Mina. Há uma
tendência nos terreiros maranhenses para distinguir índio (selvagem, que usa arco, flecha e
vestimenta de pena), caboclo de pena (índio aculturado) e caboclo (não índio, às vezes turcos
ou descendentes de nobres europeus).
Em terreiros de Mina a exibição de características selvagens, o usos de arco, flecha e
de vestimenta indígena por médium incorporado, geralmente, só aparece em rituais
destinados exclusivamente a entidades indígenas (como o realizado com uma estrutura diversa do toque de Mina).
É preciso lembrar que as entidades espirituais na Mina não usam paramentos muito
elaborados. Os mineiros costumam dançar “fardados” - todos de calça ou blusa branca e saia
ou camisa da mesma cor (branca, vermelha, verde, amarela, azul, rosa, estampada). Na Mina-
Jeje os voduns mais velhos costumam usar no ombro esquerdo um lenço dobrado do mesmo
tecido da saia, e alguns usam bengala (como Lepon) ou chicote na mão (como Dossu). Fala-se
do uso, no passado, de chapéu de feltro, por vodum da Casa das Minas-Jeje. Na casa de Nagô,
pelo menos atualmente, os voduns não usam paramentos (nem os nagô, como Xapanã, nem os
cambinda, como Pedro Angassu, e nem os jeje, Bossa).
No terreiro da Turquia, chefiado pela entidade conhecida por Rei da Turquia, as
entidades espirituais fazem uso de grandes lenços de seda coloridos, dobrados em diagonal e
amarrados na cintura (como Rei da Turquia), no pescoço (como Jaguarema), ou enrolados na
mão (como Mensageiro de Roma). Essa prática é também adotada pelos turcos em outros
terreiros de caboclos (ou “bêta”, como são denominados na Casa das Minas-Jeje).
Atualmente, em terreiros que se definem como Mata ou que têm linha de Codó, como
o de Jorge Itaci, alguns encantados costumam usar chapéu de couro ou de palha,
principalmente, em toque realizado para a família de Légua-Boji (vaqueiro) ou em
homenagem a algum caboclo importante na casa (por exemplo, no aniversário do guia-chefe
do pai-de-santo ou mãe-de-santo)
(Candomblé de Caboclo) e na Umbanda Omolocô por médiuns incorporados com boiadeiros.
Em alguns terreiros, como na Casa de Nagô, não é fácil diferençar voduns, gentis e
caboclos. Na Mina todos são organizados em famílias, tem mitologia e identidade, falam,
cumprimentam a assistência, podem dar um passe, benzer ou usar sua energia (vibração) para
curar uma pessoa da casa ou um freqüentador do terreiro (embora não dêem consulta). Mas,
existe uma coisa que os distingue claramente das outras entidades espirituais: as doutrinas
(pontos cantados) de caboclo são em português. Podem ter algumas palavras africanas mas
suas letras podem ser compreendidas pela assistência e repetidas pelos filhos-de-santo quando
falam dos ensinamentos e mistérios de sua religião.
Alguns caboclos da Mina são, às vezes, também recebidos na Cura/Pajelança ou em
rituais de outras tradições religiosas afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé de
Caboclo. Quando isso acontece, é comum o uso de nomes ou de repertórios musicais
diferentes. Mas é preciso lembrar que nem sempre caboclos da Mina que têm nomes
conhecidos em outras manifestações religiosas afro-brasileiras podem ser considerados a
mesma entidade espiritual. Embora haja migração de caboclos de uma linha para outra (como
é o caso de Jurema) e, talvez, de Bartira), muitos caboclos da Mina que têm nomes
Mina do Maranhão, os caboclos nem sempre têm origemTambor de Índio, Borá ou Canjerê,Brinquedo de Cura (Pajelança) ouGira de Umbanda, quando ha incorporação com entidade indígena.(6). O chapéu de couro é também usado no Samba Angola
conhecidos na Umbanda parecem não serem a entidade de mesmo nome recebida na
Umbanda. Entre esses podem ser citados: Tabajara, Ubirajara e Tapindaré, da família do Rei
da Turquia.
Uma grande diferença entre a Mina e a Umbanda em relação ao caboclo reside na
freqüência em que ele é representado como índio e o uso de imagens (estátuas) para
representá-lo. Nos terreiros de Mina mais antigos ou presos ao modelo da Casa das Minas e da
Casa de Nagô, só os santos têm estátuas. As entidades espirituais são identificadas por guias
(colares de contas) e estes, representam mais a sua família do que cada entidade
individualmente. O uso de pontos riscados parece não ser também tradicional na Mina. Sua
utilização nos terreiros de caboclos parece ser conseqüência de seu contato com a Umbanda.

CONCLUSÃO

No Maranhão o culto ao caboclo é amplamente desenvolvido e só não é encontrado na
Mina-Jeje. Embora cada denominação religiosa afro-brasileira tenha suas entidades caboclas
estas podem ser também encontradas em rituais que não pertencem a sua origem, uma vez
que a maioria dos terreiros têm mais de uma “linha” (Mina, Cura, Mata, Umbanda,
Candomblé) e os médiuns, geralmente, têm ligação com mais de uma delas.
No Tambor de Mina existe uma separação maior entre caboclo e índio do que entre
caboclo e vodum. Além do vodum Averequete abrir as portas para caboclo na Mina-Nagô e na
Mata de Codó, geralmente, os chefes das grandes famílias de caboclo da Mina têm parentesco
ritual com voduns. No Terreiro da Turquia, Averequete é padrinho de muitos encantados e, no
tempo da fundadora daquele terreiro, Rei da Turquia dançava com uma “guia” dada a ela por
Polibiji.
No Maranhão, tal como os voduns, o caboclo tem identidade própria, família, mitologia e
simbologia complexa. Na Casa de Nagô e nos demais terreiros que têm caboclos eles podem
ser recebidos junto com os voduns, nos mesmos rituais, e têm um comportamento muito
semelhante ao deles. Mas, algumas entidades, como Legua-Boji-Buá, são tão próximos aos
voduns e aos caboclos que chegam a ser classificadas por uns como vodum cambinda e por
outros como caboclo (príncipe guerreiro, chefe da Mata de Codó, filho de Dom Pedro Angassu
e Rainha Rosa)
Embora as entidades espirituais os caboclas no Maranhão tenham sempre alguma
ligação com o índio (população nativa do Brasil), só alguns são representados como tendo
origem indígena. Na Mina o conceito de caboclo depende mais de seu surgimento no Brasil,
como entidade espiritual, e de sua posição na cabeça do filho-de-santo do que de suas
características étnicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARRETTO, Maria Amália Pereira.
COSTA EDUARDO, Octávio da.
York: J.J. Augustin Publisher, 1948.
FERREIRA, Euclides Menezes.
1987.
Os voduns do Maranhão. São Luís: FUNC, 1977.The negro in Northern Brazil, a study in acculturation. NewA Casa Fanti-Ashanti e seu alaxé. São Luís, Gráfica Alcântara,
(7)
adotivo de Dom Pedro Angassu.
Em Codó (MA), Legua-Boji é também conhecido como um preto-velho angolano, vaqueiro, afilhado ou filho
9
FERRETTI, Mundicarmo.
SECMA, 1991 (Lp e encarte).
terreiro de São Luís - a Casa Fanti-Ashanti
FERRETTI, Sergio.
1985.
PEREIRA, Manoel Nunes.
culto dos voduns, do panteão Daomeano, no Estado do Maranhão - Brasil
Petropolis: Vozes, 1979 (1ª ed. de 1947).
SANTOS, Maria do Rosário Carvalho.
sócio-cultural
VERGER, Pierre. Uma rainha africana mãe-de-santo em São Luís.
jun.jul.ago., p.151-158, 1990.
O Candomblé no Maranhão. São Luís: Gráfica Alcântara, 1984.Tambor de Mina, Cura e Baião na Casa Fanti-Ashanti. São Luís:Desceu na Guma: O caboclo do Tambor de Mina no processo de mudança de um. São Luís: SIOGE, 1993.Terra de Caboclo. São Luís: SECMA, 1994.Querebentan de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas. São Luís: UFMA,A Casa das Minas: uma contribuição ao estudo da sobrevivência do. 2ª ed.,Boboromina: terreiros de São Luís, uma interpretação. São Luís: SECMA, 1986.Revista USP, São Paulo, n.6,

ENTIDADES ESPIRITUAIS CABOCLAS DO TAMBOR DE MINA

(5).

(1993) e em
Os terreiros de Mina mais antigos não estimulam a abertura de outras casas. A Casa
das Minas não reconheceu, ate hoje, nenhuma outra como Mina-Jeje e a Casa de Nagô,
embora tenha reconhecido vários terreiros antigos como dela oriundos, não preparou ninguém
para abrir terreiro (fala-se que algumas vodunsis foram autorizada, por sua entidade
espiritual, a abrir terreiro e que depois da casa aberta tiveram acompanhamento de sua mãede-
santo durante dois anos).
O empenho da Casa das Minas e da Casa de Nagô para impedir a multiplicação de
terreiros de Mina justifica a suspensão ali de iniciações completas desde 1914, e a falta de
ligação direta de outros terreiros com elas. Os pais-de-santo que preparam hoje pessoas para
abrir ou comandar terreiro foram iniciados em casas extintas e/ou completaram sua iniciação
fora do Estado e fora da Mina.
No Tambor de Mina são cultuados voduns e orixás (africanos), gentis (nobres
associados a orixás ou entidades africanas com nomes brasileiros) e caboclos (entidades
surgidas nos terreiros brasileiros). Essas entidades são organizadas em nações e em famílias, e
possuem diferenças de idade bem marcadas. Mas, embora as mais velhas sejam mais
prestigiadas, as mais novas (às vezes crianças) podem ser também “donas da cabeça” e
podem ser recebidas em todos os toques, como: os gêmeos Tossá e Tossé e a princesa
Sepazim, da família real do Dahomé (recebidos na Casa das Minas-Jeje); e Menino Da Lera (da
família do Rei da Turquia).
Na Mina as entidades masculinas e adultas são mais numerosas e vêm nos toques com
maior freqüência. Os caboclos, geralmente, só são “donos da cabeça” quando o médium não
O Tambor de Mina surgiu na capital do Maranhão, se expandiu pelo Pará, Amazonas,
outros Estados do Norte e para as capitais que receberam grande número de migrantes do
Norte, como Rio de Janeiro e São Paulo. Embora hegemônico no Maranhão, o Tambor de Mina
- Jeje, Nagô, Cambinda, foi sincretizado no passado com manifestação religiosa de origem
indígena denominada Cura/Pajelança e com uma tradição religiosa afro-brasileira, surgida em
Codó (MA), denominada Mata ou Terecô.
A partir dos anos sessenta a Mina e a Mata passaram a ser influenciadas pela
Umbanda, tanto na capital como no interior do Estado. Hoje, embora as casas de Mina mais
antigas não tenham se filiado a Federações de Umbanda, muitos terreiros de Mina e de Mata
adotaram a Umbanda e, apesar de continuem realizando rituais de Mina, Mata e Cura
apresentam como de Umbanda e participam de atividades promovidas pela Federação como: a
Festa de Iemanjá, no ano novo, e a Procissão dos Orixás, no aniversário da fundação de São
Luís.
O Candomblé só penetrou de forma mais visível no Maranhão depois dos anos setenta,
especialmente na Casa Fanti-Ashanti, sobre a qual trato especificamente em
Casa das Minas - Jeje, consagrada ao vodum Zomadonu, e a Casa de, consagrada ao orixá Xangô - abertas em meados do século passado por africanos.

INTRODUÇÃO

: Antropologia Social; Religião afro-brasileira; Tambor de Mina; Umbanda: Caboclo.

Mundicarmo Ferretti - UEMA; INTECAB

O Triangulo, Ano III, n. 39 (1996), 40 e 41 (1997).2


Axé


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nação Nagô


CONHECIMENTOS SOBRE A NAÇÃO NAGÔ
Certos Orixás Nagôs, oferecem banquetes anuais, uma comunhão primitiva, rudimentar, à gente da casa.
Os mais conhecidos desses repastos comunais, muito concorridos e apreciados pelos aderentes do Candomblé, são: o Pilão de Oxalá (moço) em que predomina o milho branco (ebô), e o olubajé de Omolu-Obaluaê, em que o elemento principal, é a pipoca. O Candomblé de Ogunjá (Procópio) encerra as suas festas com a feijoada de Ogum, outra comida coletiva.
O Caruru de Cosme e Damião, embora somente para crianças, se enquadra nesta categoria.
Os dias da semana são distribuídos, de acordo com a tradição Nagô, pelos vários Orixás, obtendo-se o seguinte quadro:
DIA DA SEMANA E ORIXÁS CORRESPONDENTES:
Segunda-feira – Exu e Omolu
Terça-feira – Nanã e Oxumarê
Quarta-feira – Xangô e Iansã
Quinta-feira – Oxóssi e Ogum
Sexta-feira – Oxalá
Sábado – Iemanjá e Oxum
Na tradição Nagô é esta a lógica da combinação dos Orixás. Na terça-feira temos a chuva e o arco-íris; na quarta, os raios e ventos – a tempestade; na quinta, a caça e as artes manuais; no sábado, a água do mar e a água doce. A sexta-feira é consagrada à Oxalá, por influência do catolicismo, mais exatamente do Culto do Senhor do Bonfim. Na segunda-feira, Exu garante a felicidade dos dias seguintes e Omolu garante a saúde e o bem-estar, purificando a semana.
O Domingo se dedica coletivamente à todos os Orixás.
Os candomblés Nagôs são comunidades fechadas, no sentido de que não obedecem a qualquer governo comum, nem à regras comuns.
A autoridade espiritual e moral, emana direta e exclusivamente do Pai ou da Mãe de Santo, que só reconhece, acima da sua própria autoridade, a dos Orixás. Esta autoridade absoluta em toda força do termo, o Chefe (Pai ou Mãe) a divide com as demais pessoas que lá freqüentam, em linhas muito nítidas de hierarquia, que beneficiam especialmente os velhos e as mulheres.
A Mãe (ou o Pai) escolhe, entre as filhas, suas auxiliares na administração – uma série de iás (futuras mães-pequenas), que se encarregam de certos serviços parciais, mas de importância.
Uma dessas auxiliares é a iá-morô, adjunta da Mãe, que a acompanha em todos os serviços religiosos; duas outras são a Dagã e a Sidagã, a primeira mais velha do que a segunda, encarregadas do Padê de Exu; outra ainda é a Iá Basse, que cozinha para os Orixás; e finalmente a Iá Tebexê, que tem a iniciativa dos cânticos nas festas e giras. É claro que, se essas auxiliares falharem nas usas obrigações, o ritual perderá com isto.
Quanto ao poder espiritual, tomemos por paradigma um ritual Nagô, que nos oferece o seguinte quadro:
MULHERES – Ialaxé
HOMENS – Pegi-gã
MULHERES – Mãe-pequena (Iá-quererê)
HOMENS – Axogum
MULHERES
HOMENS – Ogãs
MULHERES -
HOMENS – Alabê
MULHERES -
HOMENS – Tocadores de Atabaque
MULHERES -
HOMENS – Tocadores de Atabaque
MULHERES – Filha de Santo
HOMENS – Filho de Santo
MULHERES – Ebomim
HOMENS -
MULHERES – Iaô
HOMENS -
MULHERES -Equede
HOMENS -
MULHERES – Abiãs
HOMENS -
O Pegi-gâ (dono do altar) e a Ialaxê (zeladora do Axé) são personagens importantíssimas, mas sem funções reais, pessoais, dentro do ritual. Os seus títulos são uma distinção especial, mas os deveres resultantes dos seus cargos são delegados à filhas da sua imediata confiança. Teoricamente responsáveis, perante a Mãe, pelo altar e pelos Axés, o Pegi-gã e a Ialaxê dão idéias e sugerem modificações para mantê-los à altura das tradições da Casa.
Substituta imediata da Mãe, a mãe-pequena (Iá-quererê em nagô) lhe está imediatamente abaixo na escala da hierarquia, como administradora civil e religiosa do Ritual; é sempre a filha mais velha na feitura do santo, lugar-tenente da Mãe (ou do Pai), a mãe-pequena está em contato mais direto com os filhos, pois a Mãe apenas fiscaliza, aconselha e dirige o ritual, enquanto a mãe-pequena, executante, acompanha atentamente a marcha das cerimônias. Também a mãe-pequena é chamada de mãe pelos filhos que lhe tomam benção e lhe fazem a mesma reverência devida à Mãe (o Pai).
O Axogum, o sacrificador de animais (o Mão-de-faca), só eventualmente exerce as suas funções, quando necessário a matança, para cerimônias religiosas.
O Axogum e o Pegi-gã são escolhidos entre os Ogãs da casa, em geral os mais constantes no auxiliar do ritual, ou os mais dedicados aos Orixás.
Os Ogãs são protetores do ritual, com a função especial e exterior à religião de lhe emprestar prestígio e angariar recursos financeiros para as cerimônias sagradas. A maior parte das vezes o próprio Orixá escolhe o Ogã entregando-lhe as suas insígnias, no nosso caso, o Machado de Xangô.
Abaixo das filhas, há ainda a Equede, a qual fez voto de servidão à este ou aquele Orixá.
Em último lugar, ficam as Abiãs. Estas não pertencem ainda, realmente, ao ritual. Estão num estágio anterior a iniciação.
Este esquema de hierarquia revela, sem sombra de dúvida, que as mulheres detêm todas as funções permanentes do ritual, enquanto que os homens se reservam apenas nas temporárias e nas honorárias.
Deve-se sempre ressaltar a importância dos velhos – não exatamente das pessoas de idade, mas das que fizeram o seu santo há mais tempo ou há mais tempo aderiram ao Ritual.
Bibliografia:
CANDOMBLÉS DA BAHIA
de Edson Carneiro

domingo, 19 de dezembro de 2010

Feitura de Santo na Umbanda.


Na UMBANDA DA NATUREZA o yawo fica 3 (tres) dias recolhido em comunhão com seu santo, e sendo preparado através de nossos fundamentos.

No primeiro dia o yawo é limpo através de oferendas todas entregues e executados de forma ritualística, para que Oxalá e os orixás e Exu estejam contentes com tudo.
Estas oferendas são acompanhadas de angorocis, rezas, antigas invocações, banhos, tudo isto executado de forma diferenciada para cada filho.
No segundo dia o futuro yawo é coberto de forma ritual com os fundamentos da UMBANDA DA NATUREZA , nesta cobertura o ori, a cabeça do yawo é preparada para ser ungida por OXALÁ, BABÁ IFÁ, OXA BABÁ e os ORIXÁS.
No terceiro dia o YAWO descansa, se necessário a YABÁ mexe com YAWO para determinados rituais. Neste dia mais oferendas são depositadas aos pés de Oxalá e dos orixás, é o ajeum do santo mais a cesta de erê.
Ainda faltam muitos dias até a caida do quele. . . .
Pai Edson da Oxun


Outro Ponto de Vista.
 
Na realidade não se faz o Santo na Umbanda, desenvolve-se a espiritualidade durante as sessões de desenvolvimento. Mais para que haja uma boa doutrinação sua, deverás passar por rituais determinados pelo Babalorixá (Pai de Santo). Quanto a rituais e cerimônias que deverás passar, o Pai de Santo é que deverá te explicar, até mesmo por que só a ele cabe responder. Afinal, abrir determinadas coisas na internet é a mesma coisa que carimbar passaporte pro inferno, além de deturpar, tomam como a mais pura verdade.
 
Zeh do Burro.
 
Axé


sábado, 18 de dezembro de 2010

Amaci



O Amaci é um ritual umbandista, onde anualmente os médiuns iniciantes e os mais antigos da corrente devem passar por ele, porém para o iniciante o banho será um, e para o médium coroado será outro. Este ritual tem a finalidade de preparar o médium para receber as energias vibrantes do terreiro, além de oferecer ao filho de fé a limpeza de seu campo áurico, bem como confirmar as entidades trabalhadoras da coroa daquele médium.

Também visa propiciar ao médium maior contato com seus Orixás de Coroa, pois que para seu preparo será de praxe, que o dirigente do templo colha as ervas de todos os Orixás, uma de cada pelo menos, e coloque-as quinadas dentro do preparo que será feito com as quatro águas (mar, cachoeira, chuva e fonte/mineral), com 3 (três) dias de antecedência à Gira do Amaci.. Em algumas Casas, tem-se por costumeiro incluir bebidas alcoólicas, porém em nossa CCCJ, trabalhamos apenas com as quatro águas, e as ervas quinadas.

No ritual, cada médium em fila deve estar trajado de branco e cada um com seu respectivo pano de cabeça, para que após a lavagem da mesma, seja esta protegida pelo pano.

Após o banho ser jogado na cabeça do filho de fé, dois cambonos são os reponsáveis por colocar o pano de cabeça no médium, que em silêncio absoluto, repousará deitado em esteira por mais de 7(sete) minutos, afim de manter-se em harmonia com a energia transmitida. Essa é a regra, destinada para os médiuns iniciantes da CCCJ, sendo portanto, nosso Caboclo Chefe o responsável por jogar a água no orí do médium, iniciante ou coroado.

No tocante aos médiuns coroados, o Amaci será preparado com as quatro águas, e as ervas de todos os Orixás quinadas, além das favas (sementes/frutos) dos Orixás da Coroa (Pai e Mãe) e do adjunto, perfazendo então a quantidade de três favas, sendo cada uma ralada pelo próprio filho coroado, que após estarem em pó, devem ser misturadas ao Amaci, que permacerá intacto até seu uso, tornando-se então, um banho exclusivo para aquele médium coroado.

Outros maiores cuidados se requerem do médium coroado, como por exemplo o seu resguardo íntimo e suas vibrações no momento de se ralarem as favas, devem ao ralar, aceder 3 (três) velas brancas, sendo uma para o Orixá Pai, outro para a Mãe o a outra para o Adjunto, e ao final da queima, as mesmas devem ser despachadas no mato/mata.

Jogado o preparado sobre a cabeça do médium coroado, o procedimento ser o mesmo, deve-se os cambonos amarrar o pano de cabeça, posteriomente deve-se deitar na esteira e por lá manter-se em concentração e meditação por mais de 7(sete) minutos. Outro ponto interessante e esclarecedor é que o Amaci pode ser jogado da cabeça aos pés.


Importante salientar que tanto para os médiuns iniciantes como para os coroados, será indispensável que a energia do Amaci permaneça no campo áurico por pelo menos 24hs, e não mais de 72hs, sendo portanto recomendado que não se molhe a cabeça nas primeiras 24hs. Terminada a Gira do Amaci, podem os médiuns retirar seus panos de cabeça, salvo aqueles médiuns de incorporação que ao receberem suas entidades, retirarão para um melhor trabalho.

Frise-se que a Gira do Amaci tem outros fundamentos, que não me compete ao momento a divulgação, tais fundamentos referem-se aos pontos a serem cantados, ao ponto de firmeza que será riscado, ao defumador que nesta gira não será o habitual, além das firmezas outras que uma Casa de Umbanda deve ter nos dias de Amaci.

CCCJ

Axé

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Bori na Umbanda


Amados irmãos,
difícil falar de algo que não conhecemos, que nem mesmo tivemos qualquer contato, pois o Bori não é praticado dentro da Umbanda sim no Candomblé e outras, pelo menos na Umbanda que conheço, percebo muitos irmãos de Umbanda perguntando sobre Bori e posso até tentar repassar o que penso conhecer do mesmo, mas já de imediato adianto o Bori não faz parte da Umbanda que conheço, não quer dizer que nas Casas onde acontecem o Bori não seja de Umbanda, e quando falamos algo sobre Umbanda temos que guardar respeito a diversidade que há dentro de nossa religião, isso eu costumo falar que é ter amor pela Umbanda e quando alguém retrata apenas o seu culto é ter paixão pela Umbanda, respeitando todas as diversidades existentes em nosso meio tento repassar o que penso conhecer ou até mesmo o que desconheço.
O Bori em algumas Casas de Umbanda Traçada, Omolokô, Candomblé, “Umbandomblé” e outras é aceito, não quer dizer com isso que sua Casa que você filho tem que ser Traçada, Omoloko, Candomblé, Umbandomblé e outras, entenda que seu Pai ou Mãe no Santo aprendeu que determinado ritual se chama Bori e o que ele pensa ser Bori não quer dizer que seja, ou ainda que este veio de algumas das “umbandas” que mencionei, ou do Candomblé e trouxe o ritual para dentro do Terreiro que você faz parte, em minha humilde opinião isso não é muito correto, pois o Bori é de Candomblé e demais que informei acima, querendo ou não são mistas com o Candomblé.
Abaixo eu deixo a você algo que retirei da Revista Orixás sobre o BORI, assim todos entenderam melhor sobre o que tento repassar a vocês:

Da fusão da palavra bó, que em ioruba significa oferenda, com ori, que quer dizer cabeça, surge o termo bori, que literalmente traduzido significa “ Oferenda à Cabeça”. Do ponto de vista da interpretação do ritual, pode – se afirmar que o bori é uma iniciação à religião, na realidade, a grande iniciação, sem a qual nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, pela iniciação ao sacerdócio. Sendo assim, quem deu bori é ( Iésè órìsà ).
Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu ori, o seu princípio individual, a sua cabeça. Ele revela que cada ser humano é único, tendo escolhido suas próprias potencialidades. Odu é o caminho pelo qual se chega à plena realização de orí, portanto não se pode cobiçar as conquistas do outro. Cada um, como ensina Orunmilá – Ifá, deve ser grande em seu próprio caminho, pois, embora se escolha o ori antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.
Exu, por exemplo, nos mostra a encruzilhada, ou seja, revela que temos vários caminhos a escolher. Ponderar e escolher a trajetória mais adequada é tarefa que cabe a cada ori, por isso o equilíbrio e a clareza são fundamentais na hora da decisão e é por meio do bori que tudo é adquirido.
Os mais antigos souberam que Ajalá é o orixá funfun responsável pela criação de ori. Dessa forma, ensinaram – nos que Oxalá sempre deve ser evocado na cerimônia de bori. Yemanja é a mãe da individualidade e por essa razão está diretamente relacionada a orí, sendo imprescindível a sua participação no ritual.
A própria cabeça é síntese de caminhos entrecruzados. A individualidade e a iniciação (que são únicas e acabem, muitas vezes, se configurando como sinônimos) começam no ori, que ao mesmo tempo apota para as quatro direções.
OJUORI – A TESTA
ICOCO ORI – A NUCA
OPA OTUM – O LADO DIREITO
OPA OSSI – O LADO ESQUERDO
Da mesma forma, a Terra também é dividida em quatro pontos: norte, sul, leste e oeste; o centro é a referencia, logo toda pessoa deve se colocar como o centro do mundo, tendo à sua volta os pontos cardeais: os caminhos a escolher e seguir. A cabeça é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
Na África, ori é considerado um deus, alias, o primeiro que deve ser cultuado, mas é também, junto com o sopro da vida (emi) e o organismo (ese), um conceito fundamental para compreender os ritos relacionados a vida, como axexê (asesé). Nota – se a importância desses elementos, sobretudo o ori, pelos oriquis com que são evocados:
O bori prepara a cabeça para que o orixá possa manifestar – se plenamente. Há um provérbio nagô que diz: Orí buru kó si orisá. É o bori que torna a cabeça ruim não tem orixá. É o bori que torna a cabeça boa. Entre as oferendas que são feitas ao ori algumas merecem menção especial. É o caso da galinha – d’angola, chamada nos candomblés de etum ou konkém, que é o maior símbolo de individuação e representa a própria iniciação. A etun é adoxu (adosú), ou seja, é feita nos mistérios do orixá. Ela já nasce com exu, por isso relaciona – se com começo e fim, com a vida e a morte, por isso está no bori e no axexê.
O peixe representa as potencialidades, pois a imensidão do oceano é a sua casa e a liberdade o seu próprio caminho. As comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e fartura. Flores, que aguardam a germinação, e frutas, os produtos da flor germinação, simbolizam fartura e riqueza.
O pombo branco é o maior símbolo do poder criador, portanto não pode faltar. A noz cola, isto é, o obi é sempre o primeiro alimento oferecido a ori; é a boa semente que se planta e espera – se que dê bons frutos.
Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranqüilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe ao ori de cada um eleger prioridades e, uma vez cultuado como se deve, proporciona-las aos seus filhos.
NUNCA SE ESQUEÇA: ORIXÁ COMEÇA COM ORI.
Amados Irmãos deixo uma frase para fazerem orientá-los quanto a diversidade:
“Enquanto a diversidade nos separa a Caridade, a Fé, a humildade e o amor ao próximo nos une!”

Alex de Oxóssi

Axé

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Os Pretos Velhos


Com certeza a mais carismática entidade que povoa os terreiros de Umbanda. A mística do Preto Velho é fruto de condições e circunstâncias únicas em terras brasileiras.
A sofrida vida dos escravos, trazidos da África, já bastante documentada e comentada, fazia com que os indivíduos, em função do penoso e extenuante trabalho a que eram submetidos, somado aos maus tratos, vivessem, em média, somente sete anos após sua chegada ao Brasil.
As mudanças no panorama econômico brasileiro, como a decadência do ciclo da cana-de-açúcar e a redução da atividade mineradora, fizeram com que uma grande leva de escravos migrados, para os centros urbanos, pudesse levar uma vida mais amena e conseguisse ter uma expectativa de vida mais longa.
Mesmo assim as condições de salubridade, nesta época, não favoreciam a longevidade.
Então surge a figura daquele escravo que, apesar das suas condições de vida, alcança idade avançada, personificando o patriarca da raça, cuja sapiência parece lhe ser conferida pelos cabelos brancos.
Nas sociedades tradicionais, a figura do idoso é um símbolo da experiência de vida e um pilar da cultura do grupo a que pertence; aquele que deve ser ouvido e cujos conselhos devem ser seguidos.
Vemos, portanto, o aparecimento de uma entidade cuja linha de trabalho é marcada pela tolerância, rústica simplicidade e um profundo sentimento de caridade. Só quem sofreu na carne as desventuras da vida, pode entender ou se aproximar da compreensão do sofrimento alheio, porque é possível responder a toda violência sofrida, com amor, sem nenhum sentimento revanchista ou de vingança.
Característica típica da raça africana é o apego à vida, alegria que se manifesta em musicalidade e uma sabedoria ancestral quase biológica, que transparece na religião.
A forma como se apresenta nos terreiros de Umbanda, através dos médiuns, é como uma pessoa muito idosa, curvada pelos anos. Às vezes apoiado em uma bengala, com uma voz meiga, algo paternal que atrai a confiança e simpatia de quem ouve.
Com movimentos lentos, típicos de um ancião, geralmente senta-se em um pequeno banquinho ou num pedaço de tronco, fumando seu cachimbo de barro ou um cigarro de palha, queimando seu fumo de rolo.
Gosta de beber desde a cachaça branquinha até o vinho tinto bem forte ou um café amargo. Mas uma de suas bebidas favoritas é a polpa do coco verde, triturada no pilão e misturada com um pouco de pinga.
As histórias que ouvimos a respeito dos Pretos Velhos, são bastante variadas e pitorescas.
Dizem que em vida, foram grandes sacerdotes do culto dos Orixás; que viveram muitos anos devido a seus conhecimentos mágicos, alcançaram a sabedoria e usam estes conhecimentos misturados a um pouco de bruxaria, para os trabalhos de cura e descarrego.
Porém, algumas histórias nos dizem que eles foram homens comuns, que alcançaram a redenção espiritual através dos suplícios do cativeiro. A sua tolerância ao martírio, sem manifestar revolta ou ódio pelos seus algozes e o profundo amor indiscriminado pela humanidade, os ascendeu a um patamar de mestres espirituais.
Outros nos contam que, em vida terrena, os Pretos Velhos eram homens predestinados, encarnados para assegurar um lenitivo ao sofrimento dos escravos, e que, por sua bondade e sabedoria, cativaram a amizade até dos senhores brancos, a quem também acudia com conselhos e curas. Daí a sua relativa liberdade para atender, com suas curas, ao povo pobre e sua misteriosa longevidade que lhe proporcionava a fama de sábio e feiticeiro por viver muito mais que a maioria dos escravos comuns.
A idade avançada de um escravo, já era por si própria, digna de notoriedade, por fugir, muito, da realidade do cativeiro. Por isso, aquele elemento devia ter alguma coisa diferente.
Preto Velho também gosta de beber, em seu coité, uma mistura de folhas de saião, trituradas com mel e cachaça.
Um dos pratos típicos servido nas festas ou como oferenda ao Preto Velho, e o mais brasileiro de todos, é feijoada. Comida nascida no Brasil é o resultado de circunstâncias e do gênio da raça negra.
O feijão preto era o mais básico e barato alimento na senzala. Plantado, colhido e preparado pelos escravos, na própria fazenda em que trabalhavam, era, às vezes, enriquecido pelas sobras de carne da cozinha da casa grande (geralmente porco). As partes que o senhor branco não comia, como os pés, a orelha, a garganta, o rabo, o focinho, etc., iam direto para o tacho coletivo e assim nascia a feijoada.
A falange dos Pretos Velhos guarda sinais particulares e individuais da origem dos elementos que a compõem. Antigos escravos, estes ainda conservam certas designações que denunciam de qual nação ou tribo africana eram oriundos. Assim encontramos Pai Tião D’Angola, Vovó Maria Conga, Vovô Cambinda, Pai Joaquim de Aruanda, Pai Zeca da Candonga, todos com uma característica comum: a bondade e a doçura com que tratam os fiéis que os consultam, procurando um alívio para suas aflições.
Grandes conhecedores de magia, dos feitiços de Exú e das propriedades curativas das ervas, os Pretos Velhos usam também a fumaça de seus cachimbos, como os pagés e caboclos, para dissolver as cargas e energias negativas que envolvem as pessoas.
Trabalham com passes magnetizantes e indicam banhos de ervas para seus consulentes.
Porém uma de suas características mais marcantes é sua força psicológica. Sustentada pelo conhecimento espiritual, esta entidade surpreende e encanta.
Ensinando, com seu exemplo, a resignação aos golpes kármicos do destino.
Conhecido como o psicólogo dos pobres, o Preto Velho, embasado em sua rica experiência de vida e transpirando a sabedoria da idade, sabe, como ninguém, ouvir e entender os problemas de seus fiéis.
O grande segredo desta virtude está no perdão aos sofrimentos recebidos. Perdão este, sem discurso demagógico, que vem de um sentimento puro de desapego e humildade. Humildade. Talvez seja esta a palavra chave do carisma do Preto Velho.
A linha dos Pretos Velhos está dentro da “falange das almas”. Seres desencarnados que alcançaram uma luz espiritual e retornam, através dos médiuns, ao plano terreno, numa missão de caridade, como que resgatando uma dívida espiritual, ajudando os necessitados, tanto na parte física, com passes magnéticos, defumações e indicando ervas curativas, como na psicológica, com conselhos e amparo afetivo, praticando a bondade incondicional que lhes é inerente.
Estas entidades, dizem alguns, compõem uma linha ligada ao Orixá Omolú, voltada para a cura e lenitivo nas aflições dos pobres.
As contas pretas e brancas que formam a sua guia, denunciam uma similaridade de natureza com este Orixá – Omulú/Obaluaiê – ligado à terra e às doenças, dela provenientes, além do semelhante histórico de sofrimentos vividos.
Estes guias, normalmente, incorporam em seus médiuns, atendendo ao chamamento dos pontos cantados em sua homenagem, nos terreiros, mas podem também “baixar” pelo magnetismo de uma oração ou de uma concentração mental dos fiéis.
Dependendo da pureza ou da mestiçagem dos rituais de um centro espírita, podem ser usados atabaques, com seu toque característico da Umbanda, ou apenas cantos marcados pelo bater de palmas, como verificamos nos terreiros mais tradicionais que ainda conservam a liturgia simples e despojada dos primeiros terreiros de Umbanda.
A sua maneira característica de incorporação, com o dorso curvado, de andar lento e inseguro, procurando apoio numa bengala, indicam, instantaneamente, a natureza da entidade. Porém dizem alguns estudiosos que este comportamento é apenas uma faceta cultural, pois estas entidades, já não tendo o corpo material próprio, não poderiam se movimentar aparentando limitações físicas, que na maioria das vezes nem sequer são oriundas dos médiuns.
O seu discurso nas preleções e conselhos transpiram uma mensagem cristã de perdão e compaixão, evidenciando a influência dessa religião com as citações sobre Jesus e os santos católicos.
Uma perfeita mistura da moral cristã, com os costumes africanos e o conhecimento da medicina natural, com práticas de pajelança.
As guias usadas nos terreiros vêm da direta influência africana, porém, uma das guias preferidas pelos Pretos Velhos, é formada pelas contas de uma semente vegetal que varia do branco leitoso ao negro. Conhecida, popularmente, como lágrimas de Nossa Senhora, são extraídas de uma planta da família das gramíneas, entrelaçadas com dentes de porco selvagem, à moda indígena, crucifixos e outros fetiches africanos, como a figa de guiné, revelando a miscigenação cultural / religiosa brasileira.
Por pertencer à falange de entidades desencarnadas ou “linha das almas”, os Pretos Velhos sofrem uma discriminação nos terreiros afro-brasileiros mais tradicionais de Candomblé. Porém, apesar de não figurarem no rol exclusivista dos Orixás africanos, os Pretos Velhos mantêm certo prestígio, não oficial, nos corações das pessoas que pertencem a cultos mais puristas.
Não raro vemos membros de Candomblés, muito exclusivistas, se renderem à docilidade e ao carisma desta entidade.
Talvez, devido aos laços culturais e étnicos que não podem negar e, também, por uma série de misteriosas histórias ouvidas, de que muitas dessas entidades foram, em vida, iniciados no culto dos Orixás. Muitos morreram sem ter quem lhes fizessem os ritos funerais que os separaria dos seus Orixás que foram assentados em suas cabeças e, portanto, estão indissoluvelmente ligados, no plano astral, ao ambiente mágico dos ancestrais de uma nação.
Devido ao seu modo peculiar de falar, com erros de gramática e concordância e com expressões roceiras, que demonstra a falta de instrução formal, os Pretos Velhos são menosprezados por alguns, como espíritos atrasados e de pouca luz. Porém seus defensores argumentam que a exatidão do português e o lirismo das palavras não indicam a elevação espiritual de ninguém. Sustentam que grandes vultos da história da humanidade, que possuíam uma retórica exemplar e uma personalidade magnética, foram grandes genocidas, como Hitler e tantos outros e que, se pudessem dirigir alguma mensagem mediúnica poderiam parecer espíritos bastante iluminados.
A qualidade da mensagem espiritual está no conteúdo, na compaixão que transparece nos atos e não na forma mecânica de sua construção.
Estas entidades, verdadeiros psicólogos, que falam a língua dos pobres e lhes tocam o coração, são grandes curadores no plano físico e espiritual, usando seu conhecimento fototerápico com defumações e banhos de limpeza astral, são mais eficientes em sua caridade do que os discursos filosóficos de uma intelectualidade distante da realidade.
Quando falamos dessa grande falange, referimo-nos também às entidades do gênero feminino, que povoam os terreiros com sua graça e candura. As Pretas Velhas, Vovó Maria Conga, Mãe Selma da Caconde, Tia Anastácia Cambinda, Mãe Rosa da Bahia e muitas outras.
A mesma história, vivida pelo gênero masculino, encontramos também entre estas entidades que passaram pelas mesmas agruras e conservaram em seu íntimo a bondade e o perdão.
As manifestações das Pretas Velhas seguem características semelhantes às dos Pretos Velhos.
O seu modo de incorporação, com uma postura curvada, o andar dificultoso e o gosto pelo cachimbo de barro com fumo de rolo.
Assim as Pretas Velhas, da Umbanda, são um referência de resignação e desprendimento, erradicando os sentimentos de raiva e ressentimento que poderiam advir das humilhações e torturas sofridas pelo seu povo no passado.
A condição do negro, após a escravidão, não mudou muito. Apesar disso, a postura solidária e mansa dessas entidades, tem sido um baluarte na valorização da cultura afro-brasileira, superando a estigmatição social de inferioridade, como um exemplo da grandeza espiritual do povo africano, que, apesar das atrocidades sofridas, soube semear exemplos de amor e caridade, exemplificando com suas vidas, a força da religião que souberam preservar.
Carinhosamente, também chamados de pai preto, estes guias ensinam uma importante lição de humildade e resignação diante das adversidades da vida, sem perder a alegria e o bom humor. É comum ouvir, dos mesmos, observações jocosas a respeito dos problemas. Simplificando o que parecia complicado, dando esperanças para fortalecer psicologicamente seu consulente, porque sabe que se fraquejarmos na lida da vida, os problemas se tornam maiores e não suportamos o fardo.
A grande lição que ensinam estas entidades é que colhemos o que plantamos. E esta é uma grande oportunidade para rever os erros cometidos, tomar consciência da nossa responsabilidade por nós mesmos na busca da felicidade.
A característica interessante é a forma descompromissada desta prática espiritual com o formalismo e austeridade presente em outras religiões. O adágio popular de que os velhos se parecem com crianças, tem um profundo senso prático no trabalho dos Pretos Velhos.
A informalidade e humildade destas entidades fazem os fiéis se sentirem descontraídos, como se estivessem na presença de um membro da família ou um velho amigo mais sábio, que lhes atende e aconselha falando francamente, procurando ajudar a resolver seus problemas.
Uma antiga história contada nos terreiros de Umbanda, fala de um escravo, cativo em uma fazenda de cana-de-açúcar no Nordeste, que desde que chegara ao Brasil, parecia ser predestinado à uma missão espiritual.
Missão esta, diziam, lhe ter sido outorgada por Oxalá. Apesar da dura vida no cativeiro, nunca se revoltou com o destino.
Grande conhecedor das ervas curativas e das mirongas de sua terra natal, pois fora um sacerdote iniciado no culto dos Orixás, tratava dos outros escravos, minimizando seus sofrimentos. A fama de seu trabalho de caridade chegou até a casa grande e passou também a assistir aos senhores brancos, sem nenhum traço de ressentimento.
Passou a ser chamado carinhosamente, por todos, de Pai Preto e passou a vida divulgando a prática da bondade incondicional.
Quando já estava velho, com quase 90 anos de idade, sua história chegou aos ouvidos de padres missionários, que, zelosos de sua catequese, decidiram ser Pai Preto um feiticeiro pagão que deveria morrer para servir de exemplo a quem ousasse interferir nos ensinamentos da Santa Igreja Católica.
Foi então dada a ordem para a sua execução. Porém até os senhores de engenho, que também muito lhe deviam por suas curas, resolveram burlar a ordem e esconder Pai Preto em local seguro, onde pudesse continuar a lhes prestar serviços. Mas a obstinação e a consciência de sua missão fizeram Pai Preto prosseguir, sem medo. Este continuava a trabalhar, em seu corpo espiritual.
Então as autoridades religiosas enviaram outra ordem: o “feiticeiro” devia ser desenterrado e sua cabeça separada do corpo e enterrada bem longe para que seus feitiços cessassem.
Desta vez, temerosos com as possíveis conseqüências da desobediência, seus amos resolveram matá-lo e fugir de complicações.
Assim, beirando os noventa anos, este ancião deixa o plano físico e começa uma nova missão no plano astral. Através dos médiuns que lhes servem de veículo, continua o trabalho de caridade e ajuda nos terreiros de Umbanda.
Afirmam outros que o verdadeiro nome de Pai Preto era Jeremias e que hoje é saudado como Pai Jeremias do Cruzeiro.
Toda a liturgia aparentemente caótica, nas incorporações do Preto Velho, demonstram um quadro clássico da Umbanda. Os fiéis, ignorando o que seus olhos vêem, enxergam não o médium, mas um velhinho negro alquebrado pela idade e pela vida, usando às vezes um chapéu de palha, outras um pano enrolado na cabeça, com um galho de arruda pendurado atrás da orelha, apoiado numa bengala, fumando um cachimbo ou um charuto, rindo e bebendo no seu coité de casca de coco, até café amargo, bebida que muito aprecia, e, por vezes mastigando uma rapadura.
É quase um membro da família, aquele vovô sábio e bondoso que todos gostariam de ter.
É quando todas as barreiras caem e as pessoas entregam, aos seus ouvidos pacientes, suas histórias e mazelas, sem nenhum pudor de confessar fracassos ou desilusões. Por que não se sentem falando a um estranho, mas a alguém que parece conhecê-los desde o início de suas vidas.
Usa uma vestimenta simples e branca, típica dos praticantes da Umbanda, lembrando a pureza de sentimentos e o vínculo simbólico com Oxalá, Pai criador dos homens e seu enorme amor pela humanidade.